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O VERBO FEITO CARNE

João 1:1-8

Passaremos a estudar esta passagem em seções breves e em detalhe;

mas, antes de fazê-lo, devemos buscar compreender o que João estava

tentando dizer ao descrever a Jesus como O Verbo.

O primeiro capítulo do quarto Evangelho é uma das maiores

aventuras do pensamento religioso que jamais obteve a mente do

homem. Antes de começar a estudá-lo em detalhe, tentaremos ver o que

João estava buscando fazer quando o escreveu.

Não passou muito tempo antes que a Igreja cristã se visse

confrontada com um problema básico. A Igreja tivera seus começos

dentro do judaísmo. No princípio todos os seus membros tinham sido

judeus. Jesus, por descendência humana, era judeu, e, com exceção de

breves visitas aos distritos de Tiro e Sidom e a Decápolis, Ele nunca saiu

da Palestina. O cristianismo começou entre os judeus; e, devido a isso,

era inevitável que falasse o idioma dos judeus, e que empregasse as

linhas de pensamento dos judeus.

Mas embora o cristianismo teve seu berço dentro do judaísmo,

pouco tempo depois se estendeu pelo resto do mundo. Trinta anos depois

da morte de Jesus, cerca do ano 60, o cristianismo tinha viajado por toda

a Ásia Menor e a Grécia e tinha chegado a Roma. Cerca do ano 60

devem ter havido na Igreja cem mil gregos para cada judeu cristão. As

idéias judaicas eram completamente estranhas para os gregos. Para tomar

um só exemplo revelador, os gregos jamais tinham ouvido falar de um

Messias. O próprio centro da esperança dos judeus, chegada do Messias,

era uma idéia completamente alheia aos gregos. A própria linha de

pensamento segundo a qual os judeus concebiam e apresentavam a Jesus

não significava nada para um grego.

Aqui estava o problema – como apresentar o cristianismo ao mundo

grego? Lecky, o historiador disse em uma oportunidade que o progresso

e a expansão de uma idéia depende, não só da força e o poder da idéia,

mas sim da predisposição para receber a da época a que é apresentada. A

tarefa da Igreja cristã consistia em criar no mundo grego uma

predisposição para receber a mensagem cristã. Como disse E. J.

Goodspeed, a questão era esta: "A um grego que está interessado no

cristianismo devia ser levado a passar por todas as idéias messiânicas

judaicas e pelas formas judaicas de pensamento, ou se poderia encontrar

um enfoque novo que pudesse falar com sua mente e coração desde seu

próprio pano de fundo?" O problema consistia em apresentar o

cristianismo e a Cristo de maneira que um grego pudesse compreendê-lo.

Ao redor do ano 100 houve um homem em Éfeso que se sentiu

fascinado pelo problema: Seu nome era João. Vivia em uma cidade

grega. Relacionava-se com gregos aos quais as idéias judaicas eram

estranhas e ininteligíveis e até grosseiras.

Como podia encontrar uma forma de apresentar o cristianismo a

esses gregos em seu próprio pensamento e em seu próprio idioma e de

maneira tal que o aceitassem e compreendessem? De súbito lhe ocorreu a

solução a seu problema. Tanto no pensamento grego como no judeu

existia o conceito de O Verbo. Isto era algo que podia elaborar-se para

enfrentar tanto ao mundo grego como ao judeu. Algo que permanecia à

tradição de ambas as raças, algo que ambos podiam compreender.

Comecemos, pois, por examinar os dois pano de fundos do conceito

do Verbo.

O pano de fundo judeu

No pano de fundo judeu havia quatro correntes que contribuíam de

certo modo à idéia do Verbo.

(1) Para o judeu uma palavra era muito mais que um mero som;

uma palavra era algo que tinha uma existência ativa e independente e

que de fato fazia coisas. Como disse o professor John Paterson: "Para o

hebreu a palavra falada era algo muito vivo... Era uma unidade de

energia carregada de poder. Voa como uma bala a seu destino". Por essa

mesma razão o hebreu era parco em palavras. O vocabulário hebreu tem

menos de dez mil palavras; o grego tem duzentas mil.

Um poeta moderno nos relata como em uma ocasião o autor de um

fato heróico foi incapaz de relatar-lhe a seus companheiros de tribo por

falta de palavras. Diante disso ergueu-se um homem "dotado com a

magia necessária das palavras", e relatou a história em termos tão vivos e

estremecedores que "as palavras adquiriram vida e caminhavam de um

lado a outro no coração de seus ouvintes". As palavras do poeta

converteram-se em um poder.

A história tem muitos exemplos desse tipo de coisas.

Quando John Knox pregava durante o tempo da Reforma na

Escócia se dizia que a voz desse homem só infundia mais coragem no

coração de seus ouvintes que dez mil trompetistas soando em seus

ouvidos. Suas palavras agiam sobre as pessoas.

Nos dias da Revolução Francesa, Rouget de Lisle escreveu a

Marselhesa e essa canção fez com que os homens partissem à revolução.

As palavras faziam coisas.

Nos dias da Segunda Guerra Mundial, quando a Inglaterra carecia

tanto de aliados como de armas, as palavras do Primeiro-Ministro, Sir

Winston Churchill, ao falar com todo o país pelo rádio, elas exerciam

influência nas pessoas. Isto era mais certo no Oriente, e o é ainda. Para

os orientais uma palavra não é um mero som; é uma força que faz coisas.

O professor Paterson recorda um incidente que Sir Adam Smith

relata. Em uma ocasião em que Sir George Adam Smith viajava pelo

deserto asiático, um grupo de maometanos lhe deram as costumeiras

boas-vindas: "A paz seja contigo". No momento não perceberam que era

um cristão; mas quando descobriram que haviam proferido uma bênção a

um infiel, apressaram-se a voltar pedindo que a devolvesse. A palavra

era como uma coisa que se podia enviar para fazer coisas e a ela se podia

trazer de volta.

Podemos compreender como, para os povos orientais, as palavras

tinham uma existência independente, carregada de poder.

(2) O Antigo Testamento está cheio dessa idéia geral do poder das

palavras. Uma vez que Isaque foi enganado para que abençoasse a Jacó

em lugar de Esaú, não teria podido fazer nada para recuperar essa bênção

(Gênesis 27). A palavra tinha saído e tinha começado a agir e não havia

nada que pudesse detê-la. Vemos a palavra de Deus em ação de maneira

especial no relato da Criação. A cada passo lemos: "E disse Deus...."

(Gênesis 1:3,6,11). A Palavra de Deus é o poder criador.

Aqui e ali nos confrontamos com esta idéia da palavra de Deus

criativa, atuante, dinâmica. “Pela palavra do SENHOR foram feitos os

céus” (Sal. 33:6). “Enviou-lhes a sua palavra, e os sarou” (Sal. 107:20).

“Ele envia as suas ordens à terra, e sua palavra corre velozmente”

(Salmo 147:15). “Assim será a palavra que sair da minha boca: não

voltará para mim vazia, mas fará o que me apraz e prosperará naquilo

para que a designei” (Isaías 55:11). “Não é a minha palavra fogo, diz o

SENHOR, e martelo que esmiúça a penha?” (Jeremias 23:29). "Falaste

desde o começo da criação, já no primeiro dia, e disseste: 'Sejam feitos o

céu e a terra'. E sua palavra foi uma obra perfeita" (2 Esdras 6:38). O

autor de Sabedoria se dirige a Deus como "Aquele que com sua palavra

fez todas as coisas" (Sabedoria 9:1).

No Antigo Testamento por toda parte se vê esta idéia da palavra

poderosa, criadora. Inclusive as palavras dos homens têm uma sorte de

atividade dinâmica; quanto mais a de Deus?

(3) Na vida religiosa hebréia intervinha algo que acentuou em

grande medida o desenvolvimento desta idéia da Palavra de Deus.

Durante mais de um século antes da vinda de Jesus, o hebraico tinha sido

um idioma esquecido. O Antigo Testamento estava escrito em hebraico

mas os judeus já não o conheciam. Os estudiosos sabiam, mas não o

povo comum.

O povo comum falava um desenvolvimento do hebraico chamado

aramaico. O aramaico é para o hebreu um pouco parecido com o que o

inglês moderno é para o anglo-saxão. Visto que essa era a situação, era

preciso traduzir as escrituras do Antigo Testamento a este idioma que o

povo entendia, e estas traduções eram chamadas targuns. Na sinagoga se

liam as escrituras no hebraico original, mas depois eram traduzidas ao

aramaico que o povo falava e as traduções que se empregavam eram os

targuns. Agora, os targuns foram redigidos em uma hora em que o povo

estava fascinado com a transcendência de Deus. Quer dizer, foram

produzidos em um momento em que os homens só podiam pensar na

distância e Deus como um ser distante e diferente.

Devido a isso os homens que fizeram as traduções, que aparecem

nos targuns sentiam muito temor em atribuir pensamentos e emoções,

ações e reações humanas a Deus. Em termos técnicos, fizeram todos os

esforços possíveis por evitar o antropomorfismo ao falar de Deus. Quer

dizer, fizeram todos os esforços possíveis por evitar atribuir sentimentos

e ações humanas a Deus. Agora, o Antigo Testamento em geral fala de

Deus de maneira humana; e em qualquer lugar que ocorria algo

semelhante no Antigo Testamento, os targuns substituem o nome de

Deus por palavra de Deus. Vejamos que efeitos teve este costume.

Em Êxodo 19:17 lemos que “E Moisés levou o povo fora do arraial

ao encontro de Deus”. Os targuns consideravam que isso era uma

maneira muito humana de falar de Deus e diziam que Moisés tirou o

povo do acampamento para ir ao encontro da palavra de Deus. Em

Êxodo 31:13 lemos que Deus disse ao povo que na sábado “é sinal entre

mim e vós nas vossas gerações”. Essa é uma forma muito humana de

falar para os targuns, portanto dizem que o sábado é um sinal "entre

minha palavra e vós". Deuteronômio 9:3 diz que Deus é um fogo

consumidor, mas os targuns traduzem que a palavra de Deus é um fogo

consumidor. Isaías 48:13 mostra uma grande imagem da criação:

“Também a minha mão fundou a terra, e a minha destra mediu os céus a

palmos”. Para os targuns esta é uma imagem de Deus muito humana, e

fazem Deus dizer: "Por minha palavra fundei a terra; e por meu poder

suspendi os céus". Inclusive mudam uma passagem tão maravilhosa

como Deuteronômio 33:27, que fala dos "braços eternos" de Deus, e o

convertem nisto: "O eterno Deus é seu refúgio, e por sua palavra o

mundo foi criado". No Targum de Jônatas esta frase a palavra de Deus

aparece não menos de trezentas e vinte vezes. É certo que não é mais que

uma paráfrase do nome de Deus, que os tradutores empregavam quando

queriam evitar atribuir pensamentos e ações humanos a Deus; mas o

certo é que a frase a palavra de Deus se converteu em uma das formas

mais comuns da expressão judaica. Tratava-se de uma frase que qualquer

judeu devoto podia ouvir e reconhecer porque a tinha ouvido tantas

vezes na sinagoga quando se liam as escrituras. Todo judeu estava

acostumado a falar da Memra, a Palavra de Deus.

(4) A esta altura devemos tomar nota de um fato que é fundamental

para o desenvolvimento posterior desta idéia da palavra. O termo grego

para palavra é Logos; mas Logos, não significa somente palavra,

também quer dizer razão. Para João, e para todos os grandes pensadores

que fizeram uso desta idéia, estes dois significados sempre estavam

intimamente entrelaçados. Quando usavam a palavra Logos sempre

tinham presente as idéias paralelas da palavra de Deus e a razão de Deus.

Agora, os judeus tinham um tipo de literatura chamada literatura

sapiencial. Esta literatura sapiencial era a sabedoria concentrada dos

sábios e dos homens inteligentes. Em geral não é especulativa ou

filosófica; pelo contrário, trata-se de uma sabedoria prática para a vida e

seu desempenho. No Antigo Testamento o maior exemplo deste tipo de

literatura é o livro de Provérbios.

No livro de Provérbios há certas passagens que atribuem um poder

misterioso, criativo, vitalizador e eterno à sabedoria (Sophia). Poderia

dizer-se que nestas passagens se personificou a sabedoria e ela foi

considerada como o agente, instrumento e colaborador eterno de Deus.

Três são as passagens principais. O primeiro é Provérbios 3:13-26. De

toda a passagem podemos destacar em forma especial:

“É árvore de vida para os que a alcançam, e felizes são todos os que

a retêm. O SENHOR com sabedoria fundou a terra, com inteligência

estabeleceu os céus. Pelo seu conhecimento os abismos se rompem, e as

nuvens destilam orvalho” (Provérbios 3:18-20).

Agora recordamos que Logos significa palavra e também significa

razão. Já vimos o que pensavam os judeus a respeito da palavra poderosa

e criadora de Deus. Aqui vemos o outro aspecto que começa a fazer sua

aparição. A sabedoria é o agente de Deus na iluminação e na criação. E

a sabedoria e a razão são duas coisas muito parecidas. De maneira que

aqui vemos aparecer o outro lado da palavra Logos. Vimos quão

importante era esse termo no sentido de palavra; agora vemos que está

começando a ser importante no sentido de sabedoria ou razão.

A segunda passagem importante é Provérbios 4:5-13. Dentro da

passagem podemos destacar: “Retém a instrução e não a largues; guardaa,

porque ela é a tua vida”.

A palavra é a luz dos homens, e a sabedoria é a luz dos homens.

Agora as duas idéias se estão amalgamando com rapidez.

A passagem mais importante é Provérbios 8:1–9:2. Nele podemos

fazer ressaltar de maneira especial:

“O SENHOR me possuía no início de sua obra, antes de suas obras

mais antigas. Desde a eternidade fui estabelecida, desde o princípio, antes

do começo da terra. Antes de haver abismos, eu nasci, e antes ainda de

haver fontes carregadas de águas. Antes que os montes fossem firmados,

antes de haver outeiros, eu nasci. Ainda ele não tinha feito a terra, nem as

amplidões, nem sequer o princípio do pó do mundo. Quando ele preparava

os céus, aí estava eu; quando traçava o horizonte sobre a face do abismo;

quando firmava as nuvens de cima; quando estabelecia as fontes do abismo;

quando fixava ao mar o seu limite, para que as águas não traspassassem os

seus limites; quando compunha os fundamentos da terra; então, eu estava

com ele e era seu arquiteto, dia após dia, eu era as suas delícias, folgando

perante ele em todo o tempo.” (Provérbios 8:22-30).

Quando lemos essa passagem encontramos um eco atrás de outro do

que diz João sobre o Verbo, a Palavra, o Logos, no primeiro capítulo do

quarto Evangelho. A sabedoria tinha essa existência eterna, essa função

iluminadora, esse poder criador que João atribuía à Palavra, ao Verbo,

aos Logos, com o que identificava a Jesus Cristo.

O desenvolvimento desta idéia de sabedoria não parou aqui. Entre

o Antigo e o Novo Testamento, os homens continuaram escrevendo e

produzindo este tipo de literatura chamado literatura sapiencial. Possuía

tanta sabedoria concentrada; tirava tanto da experiência dos homens

sábios que era uma preciosa guia para a vida. Escreveram-se dois

grandes livros em particular, que se incluem entre os apócrifos, e que são

livros que ajudarão a alma de qualquer pessoa que as leia.

(a) O primeiro é o livro chamado A Sabedoria de Jesus, filho do

Sirac, ou, segundo seu título mais comum, Eclesiástico. Este livro

também dá muita importância à sabedoria criadora e eterna de Deus.

"As areias do mar; as gotas da chuva

E os dias do passado, quem poderá contá-los?

A altura do céu, a amplidão da terra,

a profundeza do abismo, quem as poderá explorar?

Antes de todas estas coisas foi criada a Sabedoria,

e a inteligência prudente existe desde sempre."

(Eclesiástico 1:2-4, Bíblia de Jerusalém, ênfase do autor)

"Saí da boca do Altíssimo,

E como nuvem cobri a terra.

Armei a minha tenda nas alturas

e meu trono era uma coluna de nuvens.

Só eu rodeei a abóbada celeste,

Eu percorri a profundeza dos abismos"

(Eclesiástico 24:3-5, Bíblia de Jerusalém).

"Criou-me antes dos séculos, desde o princípio,

e para sempre não deixarei de existir".

(Eclesiástico 24:14, Bíblia de Jerusalém).

Aqui voltamos a encontrar a sabedoria como o poder eterno,

criador, de Deus que esteve a seu lado nos dias da criação e no princípio

do tempo.

(b) O Eclesiástico foi escrito na Palestina ao redor de 100 a.C. mas

quase ao mesmo tempo se estava escrevendo um livro igualmente

importante em Alexandria, Egito. Chama-se A Sabedoria de Salomão.

Neste livro está a imagem mais grandiosa da sabedoria. A sabedoria é o

tesouro que usam os homens para participar da amizade de Deus (7:14).

A sabedoria é o artífice de todas as coisas (7:22). É o hálito do poder

divino e um puro eflúvio da glória de Deus (7:25). Pode fazer todas as

coisas e renova tudo (7:27). Mas o autor deste livro faz algo mais que

falar da sabedoria; iguala a sabedoria com a palavra. Para ele as duas

idéias eram iguais. Podia falar na mesma frase, da sabedoria de Deus e

da palavra de Deus dando-lhes o mesmo sentido. Quando ora a Deus, é

assim como se dirige a ele:

"Deus dos pais, Senhor de misericórdia,

que tudo criaste com tua palavra,

e com tua sabedoria formaste o homem"

(Sabedoria 9:1-2, Bíblia de Jerusalém, ênfase do autor ).

Pode falar da palavra quase como João o faria mais tarde:

"Quando um silêncio profundo envolvia tidas as coisas

e a noite mediava o seu rápido percurso,

tua Palavra onipotente lançou-se, guerreiro inexorável,

do trono real dos céus para o meio de uma terra de extermínio.

Trazendo a espada afiada de tua ordem irrevogável,

deteve-se e encheu de morte o universo:

de um lado tocava o céu, de outro pisava a terra.”

(Sabedoria 18:14-16, Bíblia de Jerusalém, ênfase do autor).

Para o autor do Livro da Sabedoria, a sabedoria era o poder eterno,

iluminador, criador, de Deus; a sabedoria e a palavra eram uma e a

mesma coisa. Os instrumentos e agentes de Deus na criação foram a

sabedoria e a palavra, e são elas quem sempre traz ao coração e a mente

dos homens a vontade de Deus.

De maneira que quando João procurava uma forma de apresentar o

cristianismo encontrou a idéia da palavra dentro de sua própria fé e na

tradição de seu próprio povo; a palavra comum que, em si mesma, não é

um mero som, e sim algo dinâmico, a palavra de Deus mediante a qual

Deus criou o mundo, a palavra dos targuns; que expressavam a idéia da

ação de Deus, a sabedoria da literatura sapiencial que era o eterno poder

criador e iluminador de Deus. Assim, pois, João disse: "Se querem ver

essa palavra de Deus, se querem ver o poder criador de Deus, se querem

ver essa palavra que deu existência ao mundo e que dá vida e luz a todos os

homens, olhem a Jesus Cristo. Nele a palavra de Deus habitou entre vós."

O pano de fundo grego

Mas já vimos que o problema do João não consistia em apresentar o

cristianismo ao mundo judeu, mas em apresentá-lo ao mundo grego.

Como, então, adequava-se esta idéia da Palavra ao pensamento grego?

No pensamento grego, a idéia da palavra estava ali, esperando que a

usasse. Tinha começado esta idéia da palavra, ao redor do ano 560 a.C.,

e, o que resulta estranho, é que começou em Éfeso, onde também se

escreveu o quarto Evangelho.

No ano 560 a.C havia em Éfeso um filósofo chamado Heráclito.

Sua idéia fundamental era que tudo neste mundo está em um estado de

movimento contínuo. Tudo muda dia a dia e momento a momento. Seu

exemplo famoso era que resultava impossível banhar-se duas vezes no

mesmo rio. Alguém se banha uma vez; sai; volta-se a banhar; mas o rio

não é o mesmo, porque as águas correram e é um rio diferente. Para

Heráclito todas as coisas eram assim, tudo estava em um estado de fluxo

constante. Mas se for assim, por que a vida não é um caos total? Como

pode ter algum sentido um mundo no qual há um fluxo e uma mudança

constante, ininterrupta e contínua? A resposta de Heráclito era: toda esta

mudança e este fluir não acontecem por acaso; estão controlados e

ordenados; seguem um esquema contínuo o tempo todo; e o que controla

o esquema é o Logos, a palavra, a razão de Deus. Para Heráclito, o

Logos, a palavra, era o princípio de ordem sob o qual o universo

continuava existindo.

Mas Heráclito ia mais adiante. Sustentava que não só havia um

modelo no mundo físico; também há um modelo no mundo dos eventos.

Sustentava que nada se move sem sentido, que em toda vida e em todos

os eventos da vida há um propósito, um plano, um esquema e um intuito.

E o que é o que controla os eventos? Uma vez mais, a resposta é, o poder

que controla é o Logos, a palavra, a razão de Deus. Mas Heráclito

aprofundava ainda mais o assunto. O que é o que nos diz, a cada um,

qual é a diferença entre o bem e o mal? O que é o que faz possível que

pensemos e raciocinemos? O que é o que nos permite escolher em forma

correta e reconhecer a verdade quando a vemos? Mais uma vez Heráclito

nos dá a mesma resposta: o que dá ao homem a razão e o conhecimento

da verdade e a capacidade de julgar e discernir entre o bem e o mal é o

Logos, a palavra, a razão de Deus que habita em seu interior. Heráclito

sustentava que no mundo da natureza e dos eventos "todas as coisas

acontecem segundo o Logos", e que no homem individual "o Logos é o

juiz da verdade". Para Heráclito o Logos não era menos que a mente de

Deus que controla este mundo e a cada homem em particular.

Uma vez que os gregos descobriram esta idéia, não a deixaram

escapar. Fascinava-os. E de maneira especial os estóicos, sempre

maravilhados diante da ordem deste mundo. A ordem sempre implica

uma mente. Em qualquer lugar que haja ordem, acerto, intuito e modelo,

deve haver uma mente que projetou e controla essa ordem. Os estóicos

perguntavam: "O que é o que faz com que as estrelas se mantenham em

seu curso? O que faz com que as marés subam e baixem? O que faz com

que o dia e a noite ocorram em uma ordem inalterável? O que faz com

que as estações cheguem no momento indicado?" E respondiam: "Todas

as coisas estão controladas pelo Logos, a palavra, a razão de Deus. O

Logos é o poder que dá sentido ao mundo, o poder que faz com que o

mundo seja uma ordem e não um caos, o poder que pôs em movimento o

mundo e que o mantém em um movimento perfeito. "O Logos", diziam

os estóicos, "domina todas as coisas".

Ainda há outro nome no mundo grego que devemos observar.

Havia em Alexandria um judeu chamado Filo. Tinha dedicado sua vida a

estudar a sabedoria de dois mundos, o judeu e o grego. Nenhum outro

homem conheceu as escrituras judaicas como Filo as conhecia; e

nenhum judeu conhecia como ele a grandeza do mundo grego. Ele

também conhecia, empregava e amava esta idéia do Logos, a palavra, a

razão de Deus. Sustentava que o Logos era a coisa mais antiga que

existia no mundo e que era o instrumento mediante o qual Deus tinha

feito o mundo. Dizia que o Logos era o pensamento de Deus impresso

sobre o universo; fala do Logos pelo qual Deus fez o mundo e todas as

coisas; diz que Deus, piloto do universo, sustenta o Logos como o

volante de um leme, e com ele dirige todas as coisas. Diz que na mente

do homem também está estampado o Logos, que o Logos é aquilo que dá

ao homem a razão, o poder de pensar e o poder de conhecer. Dizia que o

Logos é o intermediário entre o mundo e Deus, entre o criado e o

incriado, que o Logos é o sacerdote que apresenta a alma a Deus.

O pensamento grego conhecia, pois, tudo referente ao Logos. Via

no Logos o poder criador e diretor de Deus, o poder que fez o universo e

que o mantém em movimento. De maneira que João chegou aos gregos e

disse:

"Durante séculos estivestes pensando, escrevendo e sonhando sobre

o Logos, o poder que fez o mundo, o poder que mantém a ordem do

mundo, o poder mediante o qual os homens pensam, raciocinam e

conhecem, o poder através do qual ficam em contato com Deus. Jesus é

esse Logos que veio à terra". "A palavra", —o Verbo— disse João, "fezse

carne". Poderíamos dizê-lo de outro modo —"a mente de Deus se

converteu em uma pessoa".

Tanto judeu como grego

Os gregos e os judeus tinham chegado lentamente à concepção do

Lagos, a palavra, a razão de Deus, a mente de Deus que fez o mundo e

que lhe dá sentido. De maneira que João se dirigiu tanto aos judeus como

aos gregos para dizer que em Jesus Cristo esta mente de Deus criadora,

iluminadora, controladora, sustentadora, tinha baixado à Terra. Veio para

dizer que os homens já não necessitam fazer conjeturas e procurar

provas; que tudo o que deviam fazer era olhar a Jesus e ver a Mente de

Deus.

O VERBO ETERNO

João 1:1-2

O princípio do Evangelho do João é de uma importância tal e de tal

profundeza de sentido que devemos estudá-lo quase versículo por

versículo. O grande pensamento do João é que Jesus não é outro senão o

Verbo criador, vitalizador e iluminador dos conceitos grandiosos a

respeito de Deus, que Jesus é o poder de Deus que criou o mundo e a

razão de Deus que o sustenta, que veio à Terra sob uma forma humana e

corpórea.

Aqui, no começo, João diz três coisas sobre o Verbo, e isso quer

dizer, que diz três coisas sobre Jesus.

(1) O Verbo existia já no princípio de todas as coisas. O

pensamento de João se remonta ao próprio começo da Bíblia: "No

princípio criou Deus os céus e a terra" (Gênesis 1:1). O que João diz é

isto —o Verbo não é uma das coisas criadas; estava presente antes da

criação. O Verbo não é uma parte do mundo que começou a existir no

tempo; o Verbo é uma parte da eternidade e estava com Deus antes do

tempo e antes do princípio do mundo. Este pensamento de João recebe

um nome técnico na teologia. João estava pensando no que se conhece

como a preexistência de Cristo. Em mais de um sentido, esta idéia da

preexistência é algo muito difícil de compreender, se não impossível.

Mas significa algo muito simples, muito prático e muito tremendo. Se o

Verbo estava com Deus antes de que começasse o tempo, se o Verbo de

Deus é parte do esquema eterno das coisas, quer dizer que Deus sempre

foi como Jesus.

Às vezes tendemos a pensar em Deus como alguém justo, santo,

estrito e vingador; e tendemos a pensar que algo que Jesus fez muda a ira

de Deus em amor e alterou a atitude de Deus para os homens. O Novo

Testamento desconhece completamente idéia. Todo o Novo Testamento

nos diz, e esta passagem de João o faz de maneira especial, que Deus

sempre foi como Jesus. O que fez Jesus foi abrir uma janela no tempo

para que pudéssemos contemplar o amor eterno e imutável de Deus. Mas

podemos nos perguntar: "Se dissermos isso, o que acontece a algumas

das coisas que lemos no Antigo Testamento? O que dizer das passagens

que falam das ordens de Deus para arrasar cidades inteiras, e destruir

homens, mulheres e crianças? Que explicação nos dá da ira, do poder

destruidor e do zelo de Deus que aparecem nas partes mais antigas das

Escrituras?"

A resposta a essas perguntas é a seguinte: não é Deus quem mudou;

o que mudou é o conhecimento de Deus por parte do homem. Os homens

escreveram essas coisas porque não conheciam mais que isso. Esse era o

estágio ao que tinha chegado seu conhecimento de Deus. Quando um

menino está aprendendo um tema, deve fazê-lo passo a passo. Não

começa com um conhecimento completo; começa com o que pode

compreender e segue avançando cada vez mais. Quando começa a

estudar álgebra não começa com o binômio de Newton; parte de

equações simples, e continua passo a passo à medida que aumenta seu

conhecimento do tema. O mesmo aconteceu com os homens e Deus. Só

podiam entender e compreender partes pequenas de Deus. Só quando

veio Jesus, os homens viram em forma completa e total como Deus tinha

sido sempre.

Conta-se que em uma ocasião uma garotinha tomou contato com as

partes mais sangrentas e selvagens do Antigo Testamento. Seu

comentário foi: "Mas isso aconteceu antes que Deus se tornasse cristão!"

Se podemos expressá-lo da mesma maneira, com toda reverência,

quando João diz que o Verbo existiu sempre, antes do princípio das

coisas, o que está dizendo é que Deus sempre foi cristão. Diz-nos que

Deus foi, é e sempre será igual a Jesus; mas os homens não podiam saber

e conhecer isto antes da vinda de Jesus.

(2) João continua dizendo que o Verbo era com Deus. O que quer

dizer com isto? Quer dizer que sempre existiu a relação mais íntima e

mais próxima entre o Verbo e Deus. Ponhamo-lo em outra forma mais

simples. Sempre existiu a relação mais íntima entre Jesus e Deus. Isso

significa que não há ninguém que possa nos dizer como é Deus, qual é a

vontade de Deus para conosco, como são o amor, o coração e a mente de

Deus, como Jesus pode demonstrar.

Tomemos uma analogia humana muito simples. Se queremos saber

o que pensa e sente a respeito de algo uma determinada pessoa, e se não

podermos nos aproximar dessa pessoa, não nos dirigimos a alguém que

apenas a conhece, a alguém que só a conhece há pouco tempo; vamos a

alguém que sabemos que é seu amigo íntimo há muitos anos. Sabemos

que o íntimo amigo de muitos anos será capaz de nos interpretar o

pensamento e sentimento dessa pessoa. Um pouco parecido é o que diz

João a respeito de Jesus. Diz que Jesus sempre esteve com Deus.

Empreguemos uma linguagem muito humana porque é o único que

podemos usar. João está dizendo que Jesus mantém uma relação tão

íntima com Deus que Deus não tem segredos para ele; e que, portanto,

Jesus é a única pessoa de todo o universo que nos pode revelar como é

Deus, e o que sente para nós.

(3) Por último João diz que o Verbo era Deus. Não cabe dúvida que

se trata de uma frase difícil de compreender, e é difícil porque o grego,

que é o idioma em que escrevia João, diz as coisas de maneira diferente

da que nós usamos. Quando o grego emprega um substantivo quase

sempre o acompanha com o artigo definido. A palavra grega para Deus é

theos, e o artigo definido, é ho. Quando o grega fala de Deus não diz

somente theos, e sim ho theos. Agora, quando o grego não emprega o

artigo definido com o substantivo, este se converte em algo muito mais

parecido a um adjetivo; descreve o caráter, a qualidade da pessoa. João

não disse que o Verbo era ho theos; isso teria significado que o Verbo

era idêntico a Deus; diz que o Verbo era theos —sem o artigo definido—

o que quer dizer, em nossas palavras, que o Verbo era do mesmo caráter,

essência, qualidade e ser que Deus. Quando João disse o verbo era Deus

não estava dizendo que Jesus era idêntico a Deus; estava dizendo que

Jesus é tão perfeitamente o mesmo que Deus em mente, coração e ser,

que em Jesus vemos a perfeição como Deus é.

Assim, pois, no próprio começo de seu Evangelho João afirma que

em Jesus, e só nele, revela-se de maneira perfeita aos homens tudo o que

Deus sempre foi e sempre será, e tudo o que Deus sente com relação aos

homens e deseja deles.

(Fonte do texto: Comentário Barclay Novo Testamento)

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