Pular para o conteúdo principal

 



A RENDIÇÃO DE NATANAEL

João 1:43-51

A esta altura do relato Jesus abandonou o Sul e se dirigiu ao norte,

para a Galiléia. Aí, possivelmente em Cã mesmo, encontrou e chamou

Filipe. Filipe, assim como André, não podia guardar para si as boas

novas. Como disse Godet: "Uma tocha acesa serve para acender outra".

De maneira que Filipe foi em busca de seu amigo Natanael e lhe disse

que cria ter encontrado o Messias prometido durante tanto tempo, em

Jesus, o homem de Nazaré. Natanael se riu. Não havia nada no Antigo

Testamento que predissera que o escolhido de Deus viria de Nazaré.

Nazaré era um lugar muito pouco conspícuo. O próprio Natanael

provinha de Caná, outra cidade da Galiléia, e nas regiões rurais a

rivalidade entre uma cidade e outra, e a inveja entre os povos é muito

notória. A reação de Natanael foi afirmar que Nazaré não era o tipo de

lugar de onde pudesse vir nada de bom. Filipe foi sábio. Não discutiu.

Limitou-se a dizer: "Vêem e vê!"

Não há muitas pessoas que foram ganhas para o cristianismo com

discussões. Mais de uma vez nossos argumentos fazem mais mal que

bem. A única forma de convencer a alguém a respeito da supremacia de

Cristo é confrontá-lo com ele. Em geral, é válido afirmar que o que

ganhou homens a Cristo não é a pregação e ensino filosófico e apoiado

em discussões, mas sim a apresentação do relato da cruz.

Conta-se que, para fins do século dezenove, Huxley, o grande

agnóstico, formava parte de um grupo que estava passando uns dias em

uma casa de campo. Chegou no domingo, e a maioria dos membros do

grupo se preparou para ir à igreja; mas, como é natural, Huxley não se

propunha ir. Aproximou-se de um homem que era conhecido por sua fé

cristã simples e radiante. Disse-lhe: "Suponhamos que hoje você não vá

à igreja, que fique em casa e me diga com toda simplicidade o que a fé

cristã significa para você e por que é cristão". "Mas", disse o homem,

"você poderia demolir meus argumentos em um instante. Não sou o

suficientemente inteligente para discutir com você". Huxley respondeu

com amabilidade: "Não quero discutir com você; só quero que me diga o

que este Cristo significa para você". O homem ficou na casa e falou com

o Huxley com toda simplicidade a respeito de sua fé. Quando terminou

os olhos do grande agnóstico estavam cheios de lágrimas: "Daria minha

mão direita", disse, "para poder acreditar isso".

Não foi uma argumentação brilhante o que chegou ao coração do

Huxley. Poderia ter rebatido com a maior eficácia e certeza qualquer

argumento que aquele cristão simples poderia lhe apresentar. O que

conquistou seu coração foi essa apresentação singela de Cristo. O melhor

argumento consiste em dizer às pessoas: "Venham e vejam!" Mas o

problema é que nós mesmos devemos conhecer a Cristo antes de poder

convidar outros a aproximar-se dele. O único evangelista autêntico é

aquele que conhece ele próprio Cristo.

De maneira que Natanael se aproximou, e Jesus pôde ler seu

coração. "Eis aqui", disse Jesus, "um verdadeiro israelita, em quem não

há engano". Era uma honra que qualquer israelita devoto agradeceria. O

salmista disse: “Bem-aventurado o homem a quem o SENHOR não

atribui iniqüidade” (Salmo 32:2). “Nunca fez injustiça” disse o profeta

sobre o servo do Senhor, “nem houve engano na sua boca.” (Isaías 53:9).

Natanael se sentiu surpreso de que alguém pudesse pronunciar um

veredicto como esse quando recém o conhecia, e perguntou como Jesus

podia conhecê-lo. Jesus lhe disse que já o tinha visto debaixo da figueira.

Que significado tem isto? No pensamento judaico uma figueira

sempre representava a paz. Sua idéia de paz era quando um homem

podia permanecer debaixo de sua própria figueira e sua própria vinha

sem que o incomodassem (comp. 1 Reis 4:25; Miquéias 4:4). Mais

ainda, a figueira era frondosa e dava muita sombra e era costume sentarJoão

se a meditar sob o amparo de seus ramos. Sem dúvida, isso era o que

tinha estado fazendo Natanael. E sem dúvida nenhuma, enquanto estava

debaixo da figueira pensava e orava pelo dia em que chegaria o

escolhido de Deus. Não cabe dúvida que tinha meditado a respeito das

promessas de Deus. E agora sentia que Jesus tinha lido até o mais

profundo de seu coração. O que surpreendeu a Natanael não foi tanto que

Jesus o tivesse visto debaixo da figueira, e sim o fato de que Jesus

tivesse lido os pensamentos que estavam no mais recôndito de seu

coração. De maneira que Natanael disse a si mesmo: "Aqui está o

homem que entende meus sonhos! Aqui está o homem que sabe de

minhas preces! Aqui está o homem que viu meus desejos mais secretos e

íntimos, desejos que jamais me animei a expressar em palavras! Aqui

está o homem que pode traduzir o suspiro inarticulado de minha alma!

Este deve ser o Filho do Deus, o prometido ungido de Deus e nenhum

outro". Natanael se rendeu para sempre ao homem que lia e compreendia

e satisfazia os desejos de seu coração.

Pode ser que Jesus tenha sorrido. Citou a velha história de Jacó em

Betel onde viu a escada de ouro que conduzia ao céu (Gên. 28:12-13).

Era como se Jesus dissesse: "Natanael posso fazer muito mais que ler seu

coração. Posso ser para você e para todos os homens, o caminho, a

escada que conduz ao céu". Mediante Jesus e só por Jesus, podem as

almas dos homens subir a escada que leva a céu.

Esta passagem nos expõe um problema. Quem era Natanael? No

quarto Evangelho é um dos primeiros discípulos; nos outros três

Evangelhos nunca aparece absolutamente; nem sequer é mencionado.

Que explicação pode ser dada a isto? Sugeriu-se mais de uma.

(1) Sugeriu-se que Natanael não é um personagem real. Que é uma

figura ideal e simboliza a todos os reais e autênticos israelitas que

rompiam as limitações do orgulho e o preconceito nacionalista e se

entregavam a Jesus Cristo. Sugere-se que Natanael não é um único

indivíduo, mas representa a todos os verdadeiros israelitas em quem não

havia engano e que receberam a Jesus Cristo.

(2) Sobre a mesma base, sugeriu-se que representa ou a Paulo, ou

ao discípulo amado a quem se menciona ao longo de todo o quarto

Evangelho. Paulo era o grande exemplo do israelita que tinha aceito a

Cristo. O discípulo amado era o discípulo ideal. Mais uma vez se supõe

que Natanael representa um ideal; que é um arquétipo e não uma pessoa.

Se esta fosse a única vez que se menciona a Natanael, se poderia aceitar

esta hipótese; mas Natanael volta a aparecer em João 21:2 e ali não é

apresentado como um ideal

(3) Foi identificado com Mateus, porque tanto Mateus como

Natanael querem dizer o dom de Deus. Já vimos que nesses tempos a

maioria das pessoas tinha dois nomes; mas nesse caso um dos nomes era

grego e o outro judeu; e neste caso tanto Mateus como Natanael são

nomes judeus.

(4) Há uma explicação mais simples. Filipe levou Natanael a Jesus.

O nome do Natanael não aparece nunca nos outros três Evangelhos; e no

quarto Evangelho não se menciona nunca a Bartolomeu. Em primeiro

lugar, na lista dos discípulos que aparece em Mateus 10:3 e em Marcos

3:18, Filipe e Bartolomeu vão juntos, e resultava natural e inevitável

relacioná-los. Em segundo lugar, Bartolomeu é realmente um segundo

nome. Significa Filho de Ptolomeu. Bartolomeu deve ter tido um

primeiro nome; ao menos é possível supor que Bartolomeu e Natanael

sejam a mesma pessoa com nome diferente. Tal hipótese se encaixa aos

atos.

Seja qual for a verdade, não resta dúvida que Natanael representa o

israelita cujo coração está limpo de orgulho e preconceito, e que viu em

Jesus Aquele que satisfazia o desejo de seu coração a quem esperava e

procurava.

(Fonte do texto: Comentário Barclay Novo Testamento)

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

  Samuel Chadwick: O Homem Tomado pelo Espírito Santo Samuel Chadwick foi uma figura de grande autoridade espiritual, descrito como um homem "tomado [e] possuído pelo Espírito Santo". Havia pregadores que falavam de Deus, mas Chadwick era um em quem Deus falava. A sua voz não era apenas a de um pregador, mas de alguém que havia sido "incendiado por dentro". Em sua presença, o ambiente mudava; era como se o ar ficasse "pesado carregado de uma santidade". Quando ele orava, "o inferno estremecia", e quando pregava, "o céu descia". Onde ele passava, multidões choravam e igrejas eram sacudidas pela presença de Deus. Origem Humilde e o Chamado Ardente A história de Chadwick começou em 1860, em Burnley, uma pequena cidade no norte da Inglaterra. Ele nasceu em meio à simplicidade e ao suor das fábricas, onde as chaminés fumegavam o dia inteiro. Seu pai era um operário humilde e temente a Deus. Ainda criança, aos 8 anos, Samuel já ajudava o pai ...
  História do Hino Quão Bondoso Amigo É Cristo Joseph Scriven: Tragédia, Consolo e Caridade A vida e a dedicação filantrópica de Joseph Scriven, o autor do hino "Quão bondoso amigo é Cristo" (Hino 200 da Harpa Cristã), foram profundamente moldadas por duas grandes tragédias pessoais, ambas relacionadas a perdas amorosas. A missão de Scriven de dedicar sua vida e dinheiro à caridade e ao consolo dos necessitados é um reflexo direto de como ele encontrou consolo perfeito em Jesus após esses eventos devastadores. 1. A Primeira Tragédia (A Morte da Primeira Noiva) Joseph Scriven nasceu em 1819 na Irlanda. Aos 25 anos, estava de casamento marcado com uma jovem de boa educação. • O Evento: Na véspera de seu casamento, sua noiva morreu afogada. • O Impacto Espiritual: Essa notícia o deixou profundamente abalado. Embora professasse a fé cristã, ele nunca havia se convertido sinceramente. Em meio ao desespero, o rapaz "voltou-se totalmente para Jesus, entregando-lhe sua vida e en...
  Blandina: A Jovem Escrava, Símbolo Inabalável da Fé na Gália do Século II O ano era 177 depois de Cristo . Sob o domínio do temido Imperador Romano Marco Aurélio , a Gália—região que hoje corresponde à França—tornou-se palco de uma das mais brutais perseguições contra a fé cristã. Neste ambiente de terror, emergiu a figura de Blandina , uma jovem escrava cuja coragem e resistência se tornaram um testemunho eterno do poder da fé. O Contexto da Perseguição e o Clamor Popular A perseguição era alimentada por um profundo mal-entendido e preconceito da população. O não-entendimento da pregação cristã gerou lendas e acusações falsas que criaram a "fórmula perfeita para instaurar uma perseguição em massa". Os cristãos eram difamados, acusados de serem canibais  por causa da Eucaristia, onde alegavam estar comendo a carne e bebendo o sangue de um homem crucificado na Judeia. Eram tidos como incestuosos  por chamarem suas esposas de "irmãs", e eram vistos como ateus  por r...